Sempre estive preso dentro de alguma coisa. Antes era uma caixa de papel. Agora por lástima estou preso dentro desse pedaço de lata quadriculado. Digo que é uma lástima porque, por estar aqui, logo serei destruído. E talvez seja pelo cheiro que impregno em quem me destrói, que eu possuo bom olfato. Consigo daqui, de dentro dessa lata, sentir o cheiro do orvalho, sobre a grama, do lado de fora desse quarto. Consigo também sentir, por cima desse cheiro de orvalho, sentir o cheiro da podridão desse lugar. Como pode, eu, ser tão desejado a essa hora? Horas antes do sol voltar a começar a iluminar o dia, haviam irmãos meus aqui comigo, do meu lado, me fazendo companhia. Mas, um a um, foi sendo removido e incinerado. Agora só, resta eu, e em breve eu cumprirei meu destino, matar um pouco mais o corpo desse ser, que ali, ronca, dormindo profundamente.
Ele entrou em vigília. Não dou dez contagem de sessenta segundos até eu estar por entre os dedos, com minha ponta em brasa e sendo transformado em fumaça. Queria eu poder ficar pra sempre dentro dessa lata. Mas sou muito mais forte do que aquele aglomerado de células, que se considera um ser vivo. Posso ver nos pensamentos dele, o desejo por mim, surgir. É magnífico.
- Venha logo, me tire daqui, seu verme em forma humana.
- São recém 6:30h. Eu deveria ser mais forte do que isso.
- Venha logo, me queime, me faça te tirar dias do teu futuro, parasita planetário.
A lata foi aberta. Os olhos estão fixos no bastão branco. O dia fica diferente após o primeiro cigarro.
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