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sábado, 15 de março de 2025

Acerca da vida ser breve

Muitos ditam a frase "a vida a breve". E considerando a média de 70 voltas ao redor de uma estrela, que qualquer um sabe, ser o tempo que nós humanos temos a oportunidade de contemplar a existência, comparando com o possível infinito tempo que o cosmos está e estará por aí, da para se entender o que querem dizer com "ser breve". 

Mas essa rapidez de existência não me parece real. Cada dia que passa é uma tortura. Eu me mutilo inconscientemente por conta de um vício desgraçado, mas o tempo parece se arrastar. 

Certamente tenho menos tempo de vida, do que já vivi. Esse tempo mais curto que tenho, do que o tempo que ja tive, me parece bem longo. Talvez por não estar preso a uma rotina de produtividade, onde há mais coisas para serem feitas do que horas para fazê-las em um dia. Talvez por considerar que a vivência pode ser aproveitada dando atenção a coisas fora do comum. 

Outro dia refleti sobre o que cada pessoa tem. E vejo gente de meia idade, assim como eu, cheias de angustia. Cheguei numa breve conclusão de que o motivo dessa agonia é por estarem cheios de vida. Essas pessoas já estão cheias de passado e também ainda estão cheias de futuro. Pois pensem, tudo o que alguém bem jovem tem, é um futuro que ainda não existiu, então tem praticamente nada. Já uma pessoa bem idosa, tudo o que tem é um passado, que já não existe mais, então também praticamente não tem nada. Mas alguém que tem um passado próximo e um futuro longo, está cheio de algo que incomoda demais. Incomoda por não poder ser tocado. Não é possível tocar no passado, pois ele não existe mais, mas está ali, consigo, presente. E não é possível tocar no futuro, pois ele ainda está por vir e pode ser alterado por inúmeros fatores.

Esse tempo que dizem ser breve, que tem a tal da vida, não se alonga sendo preenchido corretamente, nem se encurta sendo desperdiçado com futilidades. Esse tempo é lento e longo por si só. Basta saber ajustar o relógio e ver as horas.

Como ser o que nunca existiu?

 Com muita sinceridade, se eu pudesse, não me seria. Não no caso de ser alguém diferente do que hoje sou. Também não no caso de ser outro alguém, em outro corpo, mas mesmo assim existir. Se eu pudesse escolher, não teria escolhido fazer parte da existência.

Meu existir, aparentemente, não tem utilidade. Pois insisto em ser algo e mesmo assim não parece ser possível. Não há um caminho, uma dica, um conselho verdadeiro, considerando todos os fatos que me cercam, que me ajude 

Percebi algum tempo atrás que preciso ser o que ninguém nunca foi. Mas já foram de tudo nesse mundo. Me dizem, "seja isso" "seja aquilo" "faça assim" "faça assado", como se soubessem como ser algo novo, indicando caminhos repetitivos e que foram fracassos. Então o que percebi é que ser o que nunca existiu é mais complicado do que simplesmente fracassar.

Escrevo isso durante uma madrugada e ouço motores passarem acelerando. E ser um motorista que se alegra ao mostrar a potência do seu veículo é algo interessante, mas não responde o que procuro saber. Buscar ser o que nunca existiu, querendo nunca ter sido é quase um castigo.

Disse por muito tempo a alguns amigos que gostaria de ser um eu que fui no passado. Um eu quer era saudável, que tinha um bom coração, que aspirava grandes conquistas. Cheguei onde estou sem conquistar nada e esse nada, por incrível que pareça, me satisfaz. Mas mesmo satisfeito com pouco, não me sinto completo. 

Coisas não me completariam. Um eu completamente não visto, que sequer eu, tenha visto algum dia por todo esse tempo vivi, também não garante essa completude, nem garante uma felicidade genuína.

Ser algo que nunca existiu, depois de já se ter existido, parece-me uma luta que até mesmo o universo enfrenta.

sábado, 8 de março de 2025

Distâncias

 Tu aqui, eu aí

e vários nós entre nós


E entre nós

há um ali

outro lá


Porém lá

onde há 

um lugar amarrado

está o que tem nesse meio


Meio separado

às vezes junto

um pedaço de cada lado

formando um espaço

que nos mistura

sexta-feira, 7 de março de 2025

domingo, 2 de março de 2025

Um novo devaneio sobre a falta de medo de algo que faço

 Uma das únicas coisas que faço, que não sinto vergonha se rirem, são meus textos. Mesmo com todos os erros de coerência que acabo cometendo, ao deixar o pensamento livre e ir conversando sozinho, escrevendo. Mesmo com a nudez sentimental a respeito de amores, lamentações, dores, entre outras coisas que sinto. Eu sinto que escrever me deixa seguro. Não me dói risadas, chacotas, críticas ofensivas, demérito ou qualquer outro ataque que façam para com o que redigi.

Escrever me concentra, me faz não focar o pensamento em lembranças ruins. Porém escolher palavras para desabafar publicamente, aqui, para mim mesmo, atrapalha essa libertação que vem de dentro.

Escrever sobre amor, às vezes amores que só existem em minha imaginação, amores que se eu mesmo tento pronunciar sobre eles, as palavras não saem, me faz sentir um "por pra fora" essa angustia, ansiedade, que brota aqui dentro muitas vezes.

Escrever sobre dor, dores que carrego na vida, produzidas à muito tempo atrás, mas que, aberta, ainda está a ferida, me tira o lamento e o pensar em morrer. Morrer, jamais!

Deixar em textos, o trabalhar dos meus miolos. Compartilhar com o digital essas conexões que meus neurônios produzem, para o acaso de alguém encontrar e ler, não é vergonhoso para mim. Pois sinto que organizando as palavras, perfumo ideias, agradando os sentidos, como de alguém que cheira uma flor de jasmim.

É com leveza que digo: Aqui me deixo em texto à muitos anos, muitas vezes confuso, mas cada letra foi um pedaço, de dentro da minha cabeça, que saiu do meu corpo. E isso talvez seja eu.

Soneto #2 Métrica errada

 Eu me reli
e não gostei de tal fraqueza,
já faz três anos nessa luta
e não derrubo a fortaleza.

Meu pensamento até que é forte,
mas não tão forte quanto esses muros,
me são paredes de atitudes
modificando o meu futuro.

E nessa neve alucinante,
me deixo em linhas do amor
que carreguei até aqui.

Querendo ser o teu amante,
mas não podendo, sinto dor,
a dor mais forte que senti.