Com muita sinceridade, se eu pudesse, não me seria. Não no caso de ser alguém diferente do que hoje sou. Também não no caso de ser outro alguém, em outro corpo, mas mesmo assim existir. Se eu pudesse escolher, não teria escolhido fazer parte da existência.
Meu existir, aparentemente, não tem utilidade. Pois insisto em ser algo e mesmo assim não parece ser possível. Não há um caminho, uma dica, um conselho verdadeiro, considerando todos os fatos que me cercam, que me ajude
Percebi algum tempo atrás que preciso ser o que ninguém nunca foi. Mas já foram de tudo nesse mundo. Me dizem, "seja isso" "seja aquilo" "faça assim" "faça assado", como se soubessem como ser algo novo, indicando caminhos repetitivos e que foram fracassos. Então o que percebi é que ser o que nunca existiu é mais complicado do que simplesmente fracassar.
Escrevo isso durante uma madrugada e ouço motores passarem acelerando. E ser um motorista que se alegra ao mostrar a potência do seu veículo é algo interessante, mas não responde o que procuro saber. Buscar ser o que nunca existiu, querendo nunca ter sido é quase um castigo.
Disse por muito tempo a alguns amigos que gostaria de ser um eu que fui no passado. Um eu quer era saudável, que tinha um bom coração, que aspirava grandes conquistas. Cheguei onde estou sem conquistar nada e esse nada, por incrível que pareça, me satisfaz. Mas mesmo satisfeito com pouco, não me sinto completo.
Coisas não me completariam. Um eu completamente não visto, que sequer eu, tenha visto algum dia por todo esse tempo vivi, também não garante essa completude, nem garante uma felicidade genuína.
Ser algo que nunca existiu, depois de já se ter existido, parece-me uma luta que até mesmo o universo enfrenta.
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